Nos idos de 2005, por volta do mês de julho, participei com prazer da cerimônia de colação de grau do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com fins de oferecer algum prestígio à minha querida amiga Vivien Hilal, que na ocasião além do “canudo” (?) recebeu a condecoração de “membro iniciático” da F.O.D.A.: (Fraternidade da Ordem Dionisíaca de Aedos) outorgada por seus Grãos Mestres e deliberada em reunião extraordinária ocorrida no ato. Após ter bebido da “água batismal”, extraída das entranhas da terra de Minas Gerais (precisamente na cidade de Salinas), a partir da moagem da cana-de-açúcar e purificada em processo de destilação, a iniciada ouviu do Grão-Mestre A.R.M (o nome mantém-se oculto, afinal de contas somos uma Fraternidade Secreta) a sabia sentença: “É melhor limpar por dentro do que por fora”.
Se resgato estes fatos após tanto tempo, é porque me senti motivado a anotar alguns “desaforismos” proferidos em discursos de docentes e discentes. Mas antes, permitam-me atenienses, uma pequena introdução. Não vos amotineis!
Há anos observo um grande amigo, íntegro e inteligente, de nome Collez, que só não é mais virtuoso por ser presbiteriano mas, o fato é que este amigo traz sempre consigo um bloquinho acompanhado de ao menos quatro canetas “BICs” (o acaso é uma realidade, já dizia Camus), com a pérfida intenção de anotar todos os desaforos que sejam proferidos ao seu redor. Imaginem quanta coisa minha deve haver nestes malgrados escritos. Pois bem, ao ouvir o primeiro “desaforismo” proferido na referida cerimônia, lembrei-me do Collez e saquei de minha esferográfica, quando percebi (para meu desespero) que não possuía à mão, um bloquinho. O jeito foi anotar na mão mesmo.
Minha primeira observação deu-se por conta de uma afirmação no mínimo curiosa. O orador do período matutino, cujo nome fiz questão de esquecer por motivos de piedade proferiu: “Todos nós possuímos uma alma humana”. IMPRESSIONANTE! Há XXVI séculos que a filosofia busca, sem sucesso, delimitar a alma ou estabelecer um conceito, sem nunca ter chegado a um acordo e, do nada, (Cf. HEIDEGGER, Martin O que é Metafísica) surge um arquiteto recém-formado que já a estabelece como categoria! Como é possível tamanha verdade ter sido ocultada do mundo por tanto tempo? É claro que não só os homens possuem alma, o que se torna evidente pela afirmação contundente de que, se há uma “alma humana”, também deve existir uma alma para os lemingües, ornitorrincos, brócolis e couves-flor. Sem falar das chicórias. Como eu nunca percebi que as chicórias possuíam uma alma?
Na seqüência de seu discurso, o orador agradece aos “pais e responsáveis”. É claro que um sujeito que percebe a existência da alma na chicória deve ter um responsável, mesmo que já tenha atingido a maioridade legal. No momento me pareceu que ele havia retirado seus agradecimentos de uma ficha de matrícula do Ensino Fundamental, mas minha ignorância estava me induzindo a incorrer em uma monstruosa desgraça intelectual. Ainda bem que meus responsáveis me alertaram para tal fato.
No discurso do professor paraninfo, o comentário não se afastou muito disto. Disse ele: “Vocês não nasceram arquitetos, nasceram seres humanos”. Ainda bem. Se nasceram seres humanos (afirmação da qual duvidei no momento mas, meus responsáveis mais uma vez me chamaram à razão), quer dizer que possuem uma “alma humana”, e assim, o Mackenzie não outorgou o título de bacharel em arquitetura e urbanismo a nenhum lemingüe. Os alunos são espelhos de seus mestres. Já identifiquei de onde proveio a sabedoria do neo-bacharel.
Surpreendente mesmo foi o orador do período vespertino. Lá pelas tantas, o sujeito me faz um pedido aos ouvintes (que a esta altura só não gargalhavam às soltas porque talvez não estivessem entendendo nada ou estavam emocionados demais para isto); “Permitam-me contar uma piada mas, por favor, não riam.” Todos riram. Pensei comigo mesmo: “Se é para não rir, porque o sujeito vai contar uma piada ? Outra piada ? O discurso já não era uma ?” Pela terceira vez, meus responsáveis me tranqüilizaram com um enfático: “ Te segura… te segura…. Sossega…”.
A dita anedota era mais ou menos a seguinte: “Uma certa componente da realeza (cujo nome omitiremos em conta da crueldade sofrida e, se caso eu venha a pronunciar, da crueldade que irei sofrer pelas mãos de uma pessoa muito querida que adora a referida personagem) desejava ir ao baile no castelo, mas não lhe seria conveniente pois estava “naqueles dias”. Suas roupas íntimas estavam mais vermelhas que a antiga bandeira da URSS. Sua fada madrinha, sempre solicita, transformou então uma abóbora (girimum para aqueles que não estão familiarizados) em um delicado absorvente interno. À meia noite, a singela garota veio à óbito.” Moral da estória: a) nunca acreditem em fadas madrinhas; b) nunca espere as doze badaladas noturnas, pode ser tarde demais.
Realmente. A partir do momento em que eu esperei para ouvir o final desta piada (da qual não ri, atendendo ao pedido do jovem arquiteto) foi tarde demais. Para garantir minha sanidade, saí do auditório até que ouvisse a chamada dos nomes iniciados pela letra V. Afinal de contas, amigos são para todos os momentos, por mais escabrosos que estes nos pareçam.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
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