Sim atenienses,
Sigo firmemente em meu propósito de narrar nesta página as mais belas pérolas da literatura popular brasileira. Muitas eu já poderia descrever aqui mas, sinto-me no dever de resgatar alguns clássicos. É claro que aquelas pérolas meramente ortográficas, como o sujeito que colocou na prova que "todo homem é um 'cerumano'", não merecem tanta atenção quanto as maravilhosas glosas que ocorrem por mero descuido do espírito humano. É nessas que me deterei com maior atenção.
No final do ano passado, ofereci um curso de estética e filosofia da arte objetivando lapidar o senso artístico de meus alunos. Em uma dessas aulas, lembro de expor algumas telas clássicas e afrescos como a "Mona Lisa", a "Ressureição" do Rafaello, um ou outro Boticelli, algumas esculturas do período Clássico da Grécia e então, fiz uma alusão à perfeição simétrica da anatomia humana que era considerada a perfeita idéia de beleza; principalmente para os renascentistas. Citei alguns desenhos e rascunhos do Léo (Leonardo Da Vinci, para quem não tem intimidade) que esboçavam simplesmente traços humanos visando o aperfeiçoamento de suas proporções.
Foi neste momento, que um ser brilhante teve uma iluminada idéia e, lembrando-se vagamente de um desenho que ele reconhecera no ermo de sua lembrança, proferiu a fatídica sentença: "Como aquele cara do polichinelo?"
???
Milhares de interrogações me assolaram no momento, busquei visualizar o que eu conhecia dos desenhos do Léo, mas nada me lembrava o "cara do polichinelo". Tomado pela angústia e sentindo que deveria ficar calado pois algumas observações não devem ser esclarecidas sob pena de sérios danos à sanidade de quem questiona, percebi que boa coisa não sairía daquele sofisticado diálogo. Porém não me aguentei "nas bombachas" (como diria o Analista de Bagé) e soltei: "Qual cara do Polichinelo?".
O semblante de meu aluno se iluminou... tornou-se radiante. Assolado pelo efeito de dúvida que havia plantado em minha mente, imagino o quão satisfeito o distinto ficou ao perceber minha perplexidade (com aquela cara de "peguei ele"), levantar-se da cadeira e abrir braços e pernas para fazer o movimento típico de um polichinelo.
Tudo estava esclarecido. Ele se referia ao "Homem Vitruviano", de Da Vinci.
Agora me fala se eu mereço?
Pior do que esta só o cara do "Suriname"...
mas essa é outra estória.

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